Jacinta – Epílogo

Jacinta permaneceu prostrada. Inerte e com os olhos fixos na equipa de 5 homens e mulheres de bata branca e ténis da Adidas, que mais parecia terem saído de um episódio de Anatomia de Grey. Permaneceu assim por uma fracção de segundo que lhe pareceu uma eternidade. A verdade, aquela que tanto evitara mas que no fundo esteve sempre lá à espreita, apenas com os olhos de fora e a pontinha do nariz a vislumbrar-se na penumbra que tinham sido os últimos meses,tinha finalmente chegado e entrado pois, sem bater à porta, com uma expressão de eu disse-te não disse??

Jacinta sentiu a circulação voltar ao rosto enquanto os médicos olhavam para ela tentando sorrir perante a sentença que tinham proferido há segundos… não percebeu se realmente queriam sorrir ou se estariam à espera que ela reagisse, de preferência limitando-se a agradecer e despedir-se com um até breve

Nunca antes haviam se encontrado com tamanho desejo de se verem pelas costas. Eles para prosseguirem com o despacho do dia, ora vida, ora morte, ora quem sabe…

Ela, Jacinta, sem saber exactamente o que pensar ou o que sentir, tomada por um desejo súbito de recuar no tempo, sem saber bem quanto tempo, chegou ao tempo em que não existia, e la permaneceu com vontade de não existir, para por fim não sentir.

E assim permaneceu durante a viagem de regresso, enquanto a filha dormia e os tios tentavam fazer conversa de sala de espera, esperando desanuviar o ambiente dentro do carro, pois fora estava carregado de nuvens que anunciavam chuva forte. Jacinta desejou que aquele céu desabasse por cima dela, acabando com tudo e poupando-lhe o esforço de tentar sair daquele estado de nada, de dor que rasga a pele e nos faz sentir frio até deixar de reagir é apenas receber o destino que nos foi reservado.

Tinha pensado em tudo mas não tinha pensado em preparar-se para ouvir o que os médicos tinham para lhe dizer sobre o estado de saúde da filha e, embora soubesse, não estava preparada. Quem está?

E assim iniciou um luto, de uma perda esperada, que não sabia se viria, mas que sentia como se já tivesse chegado e partido levando todos os seus sonhos.

Jacinta
Ilustração @Gina Cruz

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