A sua menina

Amarrou o lenço e olhou-se no espelho durante aquilo que lhe pareceu uma eternidade. Não se reconheceu. Umas olheiras enormes adornavam os seus olhos ladeados pelas rugas dando-lhe um ar ainda mais trágico. Tinha o semblante de quem tinha acabado de perder um ente querido. Era verdade. Algo nela se tinha perdido para sempre. Há muito tempo.

Não sabia precisar quando tudo começou. Se foi numa tarde fresca de janeiro quando estavam sentados a ver os botes a flutuar no cais e ele pediu-lhe que largasse tudo e que fossem viver juntos.

Se foi no dia em que lhe bateu pela primeira vez. Estranho, não se recordava da dor. Apenas o som do estalo continuava a ecoar no seu cérebro, principalmente naquelas noites em que não conseguia adormecer e ficava a olhar para o teto a contar as voltas da ventoinha.

Se foi no dia em que ele desapareceu de casa para festejar o nascimento da sua menina e voltou uma semana depois.

Se foi numa noite bafienta em que ele a forçou a lhe entregar o seu corpo, como se ela lhe pertencesse. “Afinal, era a sua mulher”, dizia enquanto aquele corpo encharcado de suor se encostava ao seu e lhe provocava nojo.

Ou se foi naquele dia em que ela se esqueceu de deixar o almoço no forno e saiu apressada para ir buscar a menina. Naquele dia foram pontapés. Também não se lembrava da dor apenas do som da panela com o feijão a cair ao chão.

Não sabia precisar quando tudo começou, mas sabia exatamente o dia em que, à semelhança de um paciente que recebe a notícia de que tem “a tal doença”, ela entendeu que tudo ia acabar.

Foi quando ele levantou os punhos para a sua menina. Foi aí ela sentiu pela primeira vez a dor penetrante, como um soco no estômago. Fez-lhe frente. Foi pior. Até então ele não a tinha conseguido atingir. Mas nesse dia ele percebeu qual era o seu ponto fraco. Era ela, a sua menina.

Esperou que ele afogasse as mágoas no grogue, um velho confidente. Pegou no dinheiro que escondia no fundo do armário, os documentos, levantou a menina e saiu.

Aos vizinhos, esses que nunca tiveram coragem de falar, disse que ia levar a pequena ao médico. Apanhou a Hiace até à cidade.

Já no barco a brisa fresca fez-lhe lembrar do tempo em que ia brincar na praia juntamente com os outros meninos, também eles filhos de pescadores e peixeiras. O mar acalmava-a. Deixou-se dormir pela primeira vez em anos.

Voltou a ajeitar o lenço e sorriu. A única coisa que a fazia sorrir era a sua menina. A sua menina não iria ter a vida que ela teve. Isso era suficiente.

Ilustração @Gina Cruz

Este conto integra a Antologia “Mulheres e seus destinos”, organizada por Lena Marçal e Yara dos Santos e publicada em novembro de 2019. A obra contou com a participação de 180 mulheres de 15 países diferentes, com destaque para escritoras de Cabo Verde.

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