Jacinta – O caos, a destruição…a morte! A pulsão da vida!

Tinham passado alguns dias desde a viagem a Coimbra e em todas as noites, repetia-se o ritual.

Deitava-se com a TV ligada, num esforço sobrenatural para não adormecer. Permanecia de olhar fixo na tela enquanto o pensamento voava sem norte pelos vários recantos escondidos da sua mente.

Tinha medo de dormir porque durante o sono acordava do pesadelo e sonhava com muitas coisas, a maioria das vezes não se recordava dos sonhos, mas quando acordava, o primeiro pensamento era a recordação da última consulta com a equipa da Anatomia de Grey, de ténis e bata, olhos esbugalhados. A sentença proferida, em alto e bom som, ecoava na alma de Jacinta.

Um a um, percorria todos os acontecimentos que antecederam aquele momento, varrendo exaustivamente cada recanto da sua memória, sem que, no entanto, fosse capaz de entender onde teria errado, para estar ali, naquele quarto, naquela cama, naquele momento, com a filha ao lado, a viver aquele inferno. E sem encontrar resposta, restava-lhe apenas a culpa, que não podendo dirigir a outro, fazendo dela o alimento do seu ressentimento, cultivava dentro de si, corroendo-lhe todas as entranhas.

Culpa por ter saído de casa, ido aonde foi, feito o que fez, chegado aonde chegou, concretamente a lugar nenhum, mas a algum lado capaz de destruir todos os seus sonhos. 

De seguida os outros, todos o que se lembrasse, sem saber bem porquê!

E assim morria acordada, lentamente, até a noite seguinte, quando tentava em vão lutar contra o sono.

A culpa: atribuir a responsabilidade de algo que aconteceu a outro, ou a si própria! O ressentimento: a emoção que sentia por atribuir a culpa pelo que lhe aconteceu a algo, ou alguém!

Ambos os sentimentos mantinham-na presa ao passado, ao momento em que tudo mudou. Impediam-na de olhar para a frente, para a vida que viveria de ora em diante.

O medo: a incerteza sobre o que viria a seguir, sobre o que aconteceria com a filha, com ela, com a sua família.

Sentia-se à beira de um abismo, com o corpo a balançar embalado pela brisa do mar, sem saber se caia ou se recuava para a terra firme.

Para morrer não é preciso atentar contra o próprio corpo, basta para isso reduzir todas as alegrias, a expectativa de viver, a vontade de avançar. Recolher-se a um recanto profundo da alma e permanecer lá, onde não existe vontade nem desejo.

E se morresse, voltaria? Para outra vida? E os filhos? Como ficariam, não voltaria a vê-los? E o mundo, que tanto adorava? 

Olhou para a filha, tão linda! Tinha desejado tanto tê-la! Sorriu e adormeceu, pela primeira vez sem a dor que lhe queimava o peito. Pensou antes de dormir…ela é a paz no meio do caos, a beleza que espreita entre os espinhos. A fé e a esperança de dias melhores.

Ilustração @ Gina Cruz

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