(Re)encontro de almas

Nada melhor, depois de um dia de trabalho, do que sentar-se num café à beira mar para comer qualquer coisa e escutar as ondas do mar. O barulho do mar é um calmante poderoso. Tinha passado uma semana, mas na sua mente parecia uma eternidade. Já se tinha questionado mil vezes se teria tomado a decisão correta.

Fechou os olhos e reviveu o momento, o exato momento em que o estafermo saiu com a porta na fuça e a mala aviada. Sorriu!

Abriu os olhos e olhou para o seu reflexo na janela suja. Já não lhe devolvia a mesma imagem de outrora, tinham aparecido umas rugas, o sorriso mais descaído, a testa enrugada, lembrança dos maus momentos e do sol sem chapéu e sem óculos escuros. Mexeu o café com a colher, a mão…já não era igual. Pensou no seu corpo, naquele corpo que carregava a sua alma incansavelmente, já começava a dar sinais do tempo, varizes, dobras, peles…

Suspirou, sentia-se livre, dona de si! Ao mesmo tempo pensava se voltaria a encontrar alguém com quem pudesse partilhar sem pudor, momentos de intimidade e prazer. “Rótulos…enchem-nos de rótulos! Somos tão catalogadas, parece que a nossa existência se deve apenas à necessidade de procriar e garantir a sobrevivência da raça.” Pensou!

Levantou o olhar e foi quando reparou nele, ao fundo, do outro lado do café. Estaria a pintar? Desenhar? Olhava para ela? Corou…”Estás a fantasiar miúda, acorda!”

Aparentava estar na casa dos vinte, tinha um olhar sereno, forte, parecia estar a desenhar. “Olhou novamente para mim, não teve dúvidas!”

Tinha de confirmar, levantou-se com a desculpa de pedir mais um café e dirigiu-se ao balcão. Era mesmo um desenho, aproximou-se e olhou de soslaio. O coração deu um pulo que era capaz de jurar que tinha saído pela boca, mas não, continuava a bater no peito. O desenho era ela, sentada à janela, e parecia que ele tinha lido os seus pensamentos e que a história dela estava espelhada naquele retrato. Atrapalhou-se e voltou para o lugar.

Ele reparou! Terá notado? Voltou a olhar para ela mas desta vez sorriu-lhe. Ela devolveu o sorriso. Foi então que ele se levantou e começou a andar em direção à sua mesa. Desta vez era capaz de jurar que o coração estava no chão a bater fora do peito, tão forte havia sido o pulo!

Quando chegou bem perto, ela pôde observar melhor o seu rosto, parecia mais maduro que o corpo que carregava a sua alma, como se a sua história fosse pesada demais para a idade do seu corpo.

Estendeu os desenhos oferecendo-lhos para que pudesse vê-los. Sentiu-se exposta, não pelo facto de ter sido observada por ele, mas porque era incrível como o desenho refletia exatamente o que lhe ia na alma naquele momento.

Sorriu e ele considerou-se convidado para sentar na sua mesa. Permaneceram nas horas seguintes conversando sobre os desenhos. Ele encantado com a sua atenção, com o reconhecimento do seu talento, ela rendida à sua capacidade de ler almas. Uma missão de resgate. Ele traria de volta a sua menina há muito perdida em decepções amorosas, traições e trilhos da vida. Ele renovaria a sua esperança, os seus sonhos e um mundo de possibilidades aos seus pés ainda com um longo caminho pela frente. Um reencontro de almas, de épocas diferentes, em épocas diferentes, mas que precisavam do mesmo. A pulsão de vida!

Ilustração @Gina Cruz

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