Memórias com sabor a tabaco

As velhas persianas de madeira rangeram ao abrir. Saboreou o cigarro que tinha na boca. Ultimamente, o cigarro era das poucas coisas que lhe davam prazer na vida. O cheiro que lhe subia à cabeça trazia boas, mas dolorosas memórias.

Memórias da juventude, de quando ainda vestia airosos vestidos coloridos que lhe delineavam as delicadas curvas do corpo, de quando ela e as amigas passeavam pela praça e despertavam olhares curiosos, uns mais do que outros. Memórias de um tempo que desapareceu num piscar de olhos semelhante às bolas de fumo do cigarro que teimava em fumar às escondidas.

Eram apenas memórias com sabor a tabaco.

Mal se conseguia deslocar no quarto onde passava os dias, que fará pavonear-se pela praça. Odiava visceralmente depender dos outros e foi o que a idade lhe trouxe – a dependência, os olhares condescendentes, a impaciência, os risos sorrateiros.

Ilustração @Gina Cruz

Odiava olhar pela janela e ver tanta vida lá fora e não fazer parte dela, sendo apenas uma observadora do filme da sua própria existência.

Bom estava a mentir, ou melhor, não estava a ser totalmente sincera. Havia um momento que lhe trazia alegria. A visita dos netos. Quando os três cavalgavam, sim eram uns cavalos, para dentro do quarto a derrubar tudo o que viam pela frente, ela reclamava, mas esse era um momento que aquecia a sua alma semelhante à uma chávena de café bem quente. Há muito tempo não bebia café. Nem via os netos, para ser franca.

Aliás não via ninguém quase exceto à Nosinha que tratava que comesse todos os dias e das coisas da casa. “Deus pague à Nosinha”, pensou.

Olhou para a janela e o céu começava a escurecer. Semicerrou os olhos e ao longe imaginou como estaria a praça neste momento. Já, já era hora de jantar. Sopa, com certeza.

Escovou vigorosamente os dentes, para disfarçar o cheiro a tabaco, e olhou para eles com orgulho. “Ao menos sou uma velha com dentes, nada mal, para os meus 75”. O sentido de humor lá aparecia, principalmente, quando falava de si.

Escolheu um vestido simples, escovou o cabelo. Às vezes perguntava-se para quê todo esse aparato se ia comer sozinha. Lembrou-se da sua querida mãe. “Uma mulher nunca deve jantar de robe”. Tinhas razão, mãezinha, de robe, jamais.

“Dona Milú, boce bem kme kel sopa”.

Pois, sopa.

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