D’Eva-neios

Passava da meia-noite quando calçou os tacões e colocou a música no gira discos. Gostava de ouvir música em casa sozinha e com as luzes apagadas quando sentia-se angustiada com algo.

Despia-se tomava um banho e abria uma garrafa de vinho para acompanhar. A escolha da música dependia da emoção que precisasse tirar fora.

Naquele dia Eva precisava tirar aquela angústia da garganta que lhe apertava o pescoço e lhe cortava a respiração. Já perto dos 40 Eva que se encontrava solteira há algum tempo conheceu Adão. Já tinha interiorizado a crença que lhe estaria destinada uma existência sem filhos e sem companheiro. Com 40 anos a sociedade já não esperava grande coisa dela enquanto mulher e Eva aceitava calada essa imposição injusta e desigual. Há cerca de 2 anos que fazia terapia: Dissabores e traições, expectativas e frustrações, o passar dos anos, o aumento da solidão motivaram-na a tentar. Depois de muita terapia e muita leitura de auto-ajuda, Eva achou que estaria preparada para se lançar a novas aventuras. Foi com essa percepção de si própria que conheceu Adão…ao acaso…como todos os outros que tinha conhecido. Sempre envolto em mistério, acasos e coincidências. Muito drama para apimentar as suas aspirações de atriz de Hollywood. Quantos mais relacionamentos envoltos em mistério, mais se convencia que era intuição em vez de neuras e feridas mal cicatrizadas.

Fantasiava cenários dignos de Óscar e fazia questão de manipular a situação para conseguir realizar essas fantasias. Inspirava-se em tudo, era capaz de olhar para uma pedra e construir uma bela trama de amor, recheada de obstáculos, desencontros e lágrimas para que no fim pudesse viver o final feliz: Dois pares de pés descalços andando pela praia, de mãos dadas ao por do sol, ao encontro do merecido bom amor depois de vencer o bom combate.

Adiante…Eva divaga muito e se não lhe põe limites conta a história da humanidade para chegar ao cerne da questão: Adão!

Eva conheceu Adão e ambos olharam para outro como se fossem metades de um só espírito.

Eva balbuciou: “Prazer em conhecer-te Adão!”

Adão respondeu: “Que Saudades!”

Olharam um para o outro como crianças quando vão pela primeira vez ao parque infantil. Eva não se fez de rogada, mergulhou naquela alma como peixe mergulha no oceano e nadou sem parar. Invadiu o espaço, quebrou fronteiras e entrou sem pedir licença. Falou pelos cotovelos, doou-se, extorquiu tempo, estabeleceu rotinas ate que de repente!

…De repente sentiu um puxão seguido de uma forte dor na garganta…mordera mais uma vez o isco!

@ginacruz…Eva com nó na Garganta

Não se enganem que Adão não teve culpa, não vão as amigas dramáticas de Eva conspirar contra o rapaz. Fora própria Eva que armara a sua armadilha.

Eva…Eva…a principal prejudicada pelos seus jogos de manipulação e poder.

Ou seria melhor dizer, menina Eva, criança birrenta e caprichosa que não aceitava rejeição, menina insegura a quem não foi dado tempo e espaço para construir a sua autonomia, a quem foi negado afeto e liberdade para construir coragem, a quem foi reservada a reprovação e a crítica.

A dor latejante na garganta, um nó que fechava as suas cordas vocais e a deixavam falar ou sentir, aquela dor despertou Eva e fê-la voltar a si e despertar do torpor que a possibilidade de novas conexões sempre lhe causaram. Uma necessidade doentia de sentir-se conectada. Adão representava a possibilidade de vida depois de anos moribunda, mergulhada na dor e bloqueada pelos traumas que vivera.

“Aiii que merda…” – Eva suspirou com a taça de vinho torta quase derramando vinho no chão…que deprimente. Parecia uma doida varrida…nua de saltos com lábios roxos, tingidos pelo vinho e olhos borrados pelas lágrimas.

“Vai dormir Eva que esses patifes não merecem um peido teu!” – Resmungou ao erguer-se do sofá cambaleante. Seguiu rodopiando com o vinho que já estava parcialmente entornado no tapete, a língua pesada e os olhos cansados. Muito cansada para olhar para dentro de si e perceber o que sentia, trazer a luz para dentro e mudar a única coisa que podia mudar, ela própria.

“Estou muito cansada para isto…o vinho ao menos é bom!”

Plofff…caiu na cama e adormeceu profundamente.

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